LUCIANO POTTER - Senhor Tédio,
- Ricardo Veras

- há 7 dias
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Banco de reservas. Quadra pequena. Futsal infantil. Eu sentado. A gurizada correndo. O treinador não olha pra mim. Corta pra fila do banco. Pra sala pré cadeira do dentista. No quarto escuro depois do Supercine. Televisão de 20 polegadas. Filme de ação acabando. Meu irmão já dormindo de caneleira, pronto para o futebol da manhã seguinte. E eu ali. Ligado. Sem sono. Sem nada para fazer. Era você.
Na aula chata de Biologia também. Nomes demais para pedaços microscópicos demais. Só aprendia quem gostava. Eu beirava o ódio. Você sentava do meu lado. E eu achava que você era castigo. Mas era ali que alguma coisa acontecia. Corpo parado. Cabeça acesa. Cena do filme misturada com o recreio da semana passada. Uma conversa antiga reaparecendo. Ideias sem dono, surgindo do nada. Tudo misturado e ao mesmo tempo agora! Bum!
Hoje eu sei o que era aquela explosão. Ideias! O cérebro, quando parece não fazer nada, entra em modo construção. Existe até nome científico para isso: Rede de Modo Padrão. Pesquisadores mostraram que essa rede cerebral ativa memória autobiográfica, criatividade e projeção de futuro. Quando a gente não está fazendo nada, está se organizando por dentro. Você não era vazio. Era laboratório. Você era do bem, cara!
Tempo bom, Tédio. Bom no sentido de saudoso. E bom no sentido de fértil. Hoje você mora no meu bolso. Não aparece mais na espera. Porque espera não existe mais. Elevador? Celular. Fila? Celular. Intervalo de cinco minutos? Celular. Silêncio desconfortável numa mesa de jantar? Todo mundo olhando para baixo. A República do Calombo no Pescoço.
Pulando de bar em bar? Claro que não. Hoje é de app em app. De vídeo em vídeo. Um sobre guerra. Outro ensinando a braçada perfeita na natação. Outro garantindo com convicção absoluta as falhas defensivas fatais do lateral-esquerdo.
O brasileiro médio passa cerca de 54 horas por semana em frente a telas de celular. Cinquenta e quatro horas. Mais do que uma jornada formal de trabalho de 44 horas semanais no Brasil. Você virou expediente. Só que agora disfarçado de “entretenimento”.
E aqui está a mentira que contamos: “Vou pegar o celular para acabar com o tédio.” Mas não é você que acaba. É a conversa que eu teria comigo. É a memória que estava tentando emergir. É a ideia que estava quase nascendo.
Hoje eu ainda fico entediado. Mas é diferente. É um tédio preenchido. Saturado. Barulhento. Não há mais espaço para aquele vazio fértil. E eu começo a suspeitar que estamos trocando construção por distração. Saudades do banco de reservas. Da televisão de 20 polegadas. Do quarto escuro. Saudades de quando você não era inimigo.
Saudades do que a gente já viveu, cara.
Luciano Potter
Palestrante, podcaster, jornalista e comunicador.


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