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ANGELA OLIVEIRA | Havia ali uma casa triste

  • Foto do escritor: Ricardo Veras
    Ricardo Veras
  • há 2 horas
  • 3 min de leitura

O sofá, provavelmente adquirido em uma loja de renome, era claro, mas não deixava claro se era tão confortável quanto belo.

Reparei nos adornos, daqueles que preferem despertar, com calma, a sutileza do olhar e dizer pouco ou quase nada. Talvez, na melhor das hipóteses, despertassem a curiosidade sobre o nada, o vazio ou até mesmo a transparência.

Estavam dispostos de maneira uniforme, cuidadosamente posicionados, como se cada um ocupasse um lugar previamente pensado. Uma composição estudada, quase perfeita, mas que, paradoxalmente, parecia incapaz de aquecer a tristeza silenciosa que habitava aquela casa.

Interrompendo meus pensamentos, recebi, em uma bandeja clara, um café. Amei a xícara antes mesmo de amar o café. Era uma peça de família, uma herança que carregava o tempo, as memórias e os afetos.

Essa contemplação trouxe um lampejo de luz. De repente, compreendi o que eu poderia fazer naquela casa para torná-la mais viva, mais completa, talvez até menos triste. Quem sabe alegre? Por que não?

Afinal, há casas que precisam apenas de um objeto com história, de uma obra com alma ou de uma cor capaz de despertar aquilo que o silêncio, sozinho, já não consegue dizer.

Eu havia sido chamada ali para pintar telas destinadas a algumas paredes e instalar obras de artistas que represento em outras. Mas, naquele instante, percebi que minha missão ia muito além de simplesmente vestir paredes.

Antes, era preciso despi-las.

Despi-las do silêncio, da previsibilidade, da ausência de histórias. Despi-las do peso invisível que carregavam para que pudessem, enfim, acolher cor, memória, emoção e vida.

Porque a arte não existe apenas para ocupar espaços. Ela existe para revelar o que estava escondido, despertar o que adormeceu e transformar uma casa em um lugar onde as pessoas desejem permanecer.

Naquele momento compreendi que eu não estava ali apenas para decorar um ambiente. Estava ali para iniciar uma nova narrativa.

Faltavam vinte minutos para a dona da casa chegar.

Eu a tinha visto sorrindo ao lado do marido e dos filhos em um porta-retrato acomodado sobre uma bancada fria. Estavam, também, no frio. Talvez nos Alpes suíços. Pensei que, se estivessem na Bahia, eu os veria menos cobertos e mais bronzeados, talvez até mais leves.

 

Eu havia sido indicada por uma médica que me confiou a tarefa de colorir sua casa de praia. Ao final do trabalho, encantada com o resultado, ela me disse que eu havia conseguido captar a alma daquele lugar.

Foi então que compreendi que cada casa possui uma alma adormecida, esperando apenas que alguém a escute antes de escolher as cores, as obras e a luz que irão habitá-la.

Ela chegou ainda carregando a pressa que vinha da rua.

— Desculpe o atraso. Eu estava em uma audiência — disse, enquanto deixava a bolsa sobre a mesa.

Depois de mais um cafezinho — desta vez acompanhado de suco e biscoitos amanteigados — iniciou-se, sem que percebêssemos, uma verdadeira sessão de terapia.

Em menos de uma hora, conheci a história daquela família, que tinha dois filhos lindos. Entre lembranças, conquistas, ausências e sonhos, fui compreendendo que a casa era, na verdade, muito mais um suporte do que um abrigo.

A vida acontecia intensamente do lado de fora. O trabalho, os compromissos, as viagens e a rotina ocupavam quase todo o tempo. O interior da casa permanecia em silêncio, reservado apenas para receber amigos e familiares em datas especiais.

Foi então que entendi que meu trabalho não seria apenas escolher telas ou definir onde cada obra deveria ficar. Eu precisava ajudar aquela casa a voltar a conversar com seus moradores, para que deixasse de ser apenas um endereço e voltasse a ser um lar.

Crônica – Angela de Oliveira Obra: Gisele Faganello Art100_gramado

@art100_gramado

 

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