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Neusa Santarossa: Quando a rena vira portal

Foto do escritor: Ricardo Veras
Ricardo Veras
há 2 horas
3 min de leitura

Na rena pintada por Neusa Santarossa para a Rua Torta, Gramado, não há uma rena. Há uma paisagem.

A artista, que desde a infância descrevia o céu como "geleia de maçã" e que aprendeu a ver a sombra colorida dos eucaliptos no fim de tarde, faz da escultura natalina um campo de experimentação impressionista.

O gesto é radical e coerente com sua biografia. Ao invés de usar o branco, o dourado ou o vermelho esperado do Natal, Neusa escolhe o seu verde. Não um verde, mas milhares - como ela mesma define. O verde-óleo da base, o verde-luz das pernas, o verde-sombra do dorso. São os verdes que ela buscou em Cézanne e Bonnard quando chegou à serra e que hoje são sua assinatura.

Sobre esse fundo, ela lança portais de cor: manchas em amarelo-cádmio no focinho, como se a luz incidisse ali primeiro; flores em vermelho e azul-cobalto no peito; toques lilás e laranja no flanco. É o prisma do olho da artista que ela cita em seu depoimento - "nossos olhos têm lentes diferentes".

A pincelada é curta, circular, ascendente. Mesmo no suporte de fibra, percebe-se o movimento da mão que pinta. Há algo de Van Gogh nos redemoinhos do pescoço, e de Monet na dissolução da forma em luz.

Em sua série "Portais", Neusa propõe atravessar os limites do olhar humano. Esta rena é um desses portais. Ao intervir em um ícone do Natal Luz - evento por natureza pop e figurativo - ela não decora, ela pinta. E obriga o passante da Rua Torta a parar e ver sombra, luz e natureza onde antes só se via enfeite.

É o impressionismo descendo a serra para encontrar o Natal. Sou artista desde os 28 anos. Sempre tive o olhar voltado para as luzes da natureza, o que me despertou a curiosidade pela mistura das cores: quais cores representam a sombra de cada objeto e a luz projetada sobre ele.


PALAVRAS DA ARTISTA

Isso me instigou a uma busca incessante, que me move até hoje.

O movimento das pinceladas também traduz a forma como me inspiro. Pelos movimentos podemos perceber se o artista é canhoto ou destro. Pude ver e estudar que Van Gogh era canhoto, pois suas pinceladas eram sempre de baixo para cima - movimentos que só se pode fazer com a mão esquerda - e circulares em suas nuvens, com linhas ascendentes nos ciprestes.

As cores são o prisma do olho do artista. Nossos olhos têm lentes diferentes. A luz também segue o prisma de cada olhar, tanto que o artista já escolhe sua paleta. Eu, por exemplo, adoro os verdes, e eles me encaminham para milhares de tons, como a natureza dita através do sol que incide sobre eles.

Busquei muito os verdes de Cézanne, os verdes de Monet, os verdes de Van Gogh - eles podem nos ensinar muito sobre isso. Haveria uma infinidade de artistas para dar como exemplo aqui. Como esses valores tonais me inspiram e me ensinam, com outras cores também.

A dimensão, as linhas, as cores... é um processo de instigar constantemente. Na arte, aprendi que não se pode mais parar de ver assim.

Dentro dessa dinâmica, a técnica impressionista, além de me fazer ver através do olhar dos grandes mestres, me indica o caminho de como posso aprender sem ter a necessidade de um professor ao meu lado. E isso me fez autodidata. Isso me faz seguir do meu jeito de construir, sem copiar.

Neusa Santarossa.

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